viernes, 17 de julio de 2020

"Depoimento". José Preto


Cresci em terra onde a prática religiosa católica romana integrava a ordem política e institucional, com sinistros papéis de vária ordem. 
Com a única excepção dos jesuítas – tanto quanto conheço - as estruturas religiosas da ICAR em Portugal traduziram sempre, a meus olhos, a presença de uma vacuidade e ignorância escandalosas, compensadas pela grande agilidade na intriga política e aptidão efectiva de fazer mal. Ali residiu sempre – sempre a meus olhos - uma tremenda aversão à inteligência, uma condenação, à luz da pretensa moral própria, de qualquer êxito alheio; e o cultivo da “cordura” como conformação – porventura psicotizante – à mais sórdida mediocridade da vida. Conformação assente em palavras como “humildade”, ou em frases como “ a vida é um vale de lágrimas”, “a vida fez-se para sofrer”, ou até, mesmo, como Escrivá escreveu “é tão belo ser vítima”, aqui assentando uma perversíssima pedagogia de condenação de qualquer suficiência alheia, de qualquer curiosidade intelectual, porventura, mesmo, a perseguição de qualquer equilíbrio pessoal. 
Uma curiosidade malsã quanto à vida dos outros polarizava e excitava estas legiões de doentes mentais, que - exercendo escandalosamente os seus intrusivos arbítrios, sobretudo em confissão - espalharam e espalham os desequilíbrios e chagas de alma como uma infecto-contagiosa. O olhar de tal gente arrepiava-me. Mantive-me o mais longe que consegui. 
Com a infância perdeu-se o “meu” Cristo de quem guardo ainda a recordação da resposta fácil às minhas tristezas e alegrias infantis. Perdeu-se com as fadas e as histórias de infância. 
Nem a frequência do Colégio dos Jesuítas, nem a gratidão e o afectuoso respeito que por eles mantenho chegam para apagar as imagens do horror do que ao lado deles e além dos seus muros eu vira ou pressentira. Percebi que havia duas igrejas, ali. Uma para intelectuais e gente de classe alta ou posição social e política relevante e outra para os outros. Percebi que havia duas educações católicas, aqui, pelo menos: uma para gente que se pretendia desejavelmente normal e outra, que para outros se consentia e ainda me faz estremecer como crime hediondo e perigo insuportável. 
Há pouco tempo encontrei em Roma o estudo de Andrea del Col sobre a Inquisição em Itália. Aí deixou o autor umas linhas que me impressionam e cuja confirmação se me afigura plausível. Os suspeitos de heresia junto da Inquisição viam o seu processo arquivado se um Padre da Companhia aí se apresentasse declarando que havia confessado e absolvido o suspeito. Um Padre da Companhia. Outro não. Os próprios jesuítas não fazem disso a menor publicidade e isso bastaria para explicar muito do ódio que a Inquisição lhes dedicava, ao ponto de serem, eles próprios, suas vítimas. A informação comporta, porém, como consequência necessária, o odioso da salvação de uns, mas não de outros. Damião de Góis, correspondente de Erasmo de Roterdão foi dos que não foram salvos, ao menos do ultraje, por exemplo. Há duas educações e dois tratamentos, sim. E modos específicos de vitimação e predação já bem patentes nas telas de Caravaggio, homem abandonado pela sorte e que não teria sempre a possibilidade de recusar o que lhe pediam. O sacrifício de Isac desdobra-se em telas tremendas e, ao menos uma vez, é insuportavelmente claro. Como o são as pinturas que figuram João Baptista como um adolescente com as feições de rapaz pervertido nos asilos católicos. Não é menos arrepiante a representação de S. Sebastião, cujo modelo será pela primeira vez oferecido por um discípulo de Caravaggio, sobre o modelo do escravo agonizante. 
O cultivo da estética da perversão parece-me começar aí. Há alguma coisa de estrutural, nisto. Mas não quero olhar o fenómeno demasiado de perto, porque os abismos nos tocam quando os olhamos e o fazem na proporção da profundidade do olhar.
Saído do Colégio, fui para Direito. Deparei-me com um vazio radical no plano da própria História da Filosofia do Direito e com uma perfeita incapacidade de enquadrar o Direito na História da Cultura da qual é parte integrante. Quis frequentar Filosofia, para procurar isso que ali faltava, mas era proibido frequentar dois cursos superiores ao mesmo tempo, no sistema das Universidade Públicas, ou no das Privadas. A formação – e menos ainda a curiosidade intelectual - não justificava “tirar o lugar a outro” em regime de “numerus clausus”. 
Inscrevi-me então na Universidade Católica local, que não era nem pública nem privada por ser regida nos termos da Concordata. A experiência foi má, globalmente falando, embora me tenha sido útil. Saí no terceiro ano de Filosofia e a bater com a porta. Nunca mais lá fui. Nunca requeri sequer um certificado escolar depois da saída. E não volto a entrar lá, seja para o que for. Havia gente simpática, em todo o caso. O actual Cardeal de Lisboa foi ali meu professor de História da Educação em Portugal e era um jovem criativo, de simpatia transbordante. Quase um jesuíta. (Não me parece que esteja igual. Noto-lhe acentuadas diferenças). 
Havia naquele curso de Filosofia uma cadeira de Teologia Filosófica. Aquilo teria feito morrer de pasmo o bom velho Leibniz, a quem devemos a ideia. Um franciscano leccionava aquilo (imaginava ele, pelo menos). Homem baço e pardo. Quis vincular-me ao que pensava ser a canonicidade das opiniões na obediência dele (coisa singular numa licenciatura em Filosofia). Havia Inquisição naquela cabeça. E talvez por isso o meu exame com ele transformou-se rapidamente em conflito. De novo vi a cara do inimigo. Chamava-me “modernista” (ainda hoje não percebo porquê) e gritava que quanto eu dizia tinha sido condenado. Discutíamos (com rudeza absurda) o Conhecimento de Deus e os itinerários da Teologia Filosófica e da Teologia Revelada. (Eu não era dos que se inibiam diante do poder do professor). No fim, o homem queria fugir em vez de tornar pública a classificação. E a exigência do anúncio verbal e pessoal da classificação no fim da prova, diante da sala onde ele fizera aquela inesquecível figura, foi a última coisa que lhe disse. Nunca mais o vi, embora lhe tenha pressentido o vulto, uma ou outra vez.  
Depois da horrível cena, desci ao Bar e tomei um café. Os meus camaradas entenderam que precisava de estar só. Entrei na biblioteca que ficava ao lado do Bar, nessas longínquas eras. E percorri maquinalmente as estantes, sem nada procurar. Agarrei, Deus saberá porquê, um volume de alguma coisa, abri ao acaso e deparei-me com um texto de Lossky quanto ao Conhecimento de Deus. 
Tive uma surpresa difícil de descrever. Os primeiros parágrafos eram precisamente o que eu acabara de dizer, com a mesma estrutura e as mesmas palavras. Aquilo era o que eu tinha dito, como se tivesse decorado o texto. Não sabia quem era Lossky. E tratei de saber, coisa que, de resto, não foi difícil. A memória daquela experiência nunca me abandonou. E quando me perguntam, como é que te tornaste ortodoxo? Ou, como é que regressaste à Ortodoxia? Costumo responder que sempre fui ortodoxo. Descobri-o ali. Estávamos em 1980. 
Só tinha que descobrir a minha gente e isso não foi fácil. Quanto aos demais, recordo Vladika Gabriel de Comane, Arcebispo do Patriarcado Ecuménico para os russos na Europa Ocidental, que, referindo-se à sua própria experiência (tratava-se de um belga) contava que quem o conhecia, quando ele próprio regressou à Ortodoxia, perguntava com frequência –“ele tornou-se orto-quê?”… E isto era na Bélgica. Imaginem em Portugal. 

Dois anos depois encontrei o Metropolita Gabriel de Lisboa. Festejava o segundo aniversário da sua sagração pelo sínodo Vétero-Calendarista grego de Auxentios. Vladika Philaret, Primeiro Hierarca da Igreja Russa fora das Fronteiras, tinha devolvido a sucessão apostólica a estas comunidades. 
Vladika Gabriel regressara à Ortodoxia em Genebra, porque findo o serviço militar como oficial miliciano em época de guerra colonial, tivera um sonho galvanizante, onde um ancião de estranhas vestes lhe dava de beber junto a um poço. Quis professar nos Cónegos regrantes de Santo Agostinho – porque sabia que aquele ancião era Agostinho – e a abadia mais próxima era em Genebra, se bem entendi. Em todo o caso foi para lá que se dirigiu. O taxista deixou-o no sítio que pensava ser a abadia. Aí lhe abriu a porta um homem maduro que se apresentou como Padre Agostinho e lhe disse que ali era a Catedral de Genebra da Igreja Russa. A abadia ficava mais acima. Algum tempo depois, o que viria ser Gabriel de Lisboa desceu a rua e voltou a bater à porta da Catedral Russa. Ali enunciou o seu regresso à Ortodoxia e foi acolhido como monge pelo Arcebispo António de Genebra. Feito Arquimandrita e mandado para Portugal, surpreendeu-se com a adesão dos seus amigos de juventude e adolescência. Estruturou-se uma comunidade muito, mas muito, coquette. Que crescia. Na classe alta. Um português, monge russo – para mais cultíssimo, naturalmente elegante e a falar de coisas que ninguém tinha ouvido – fez discreto furor. O Arquimandrita pediu mais clero. Não havia. Pediu a Mons. António de Genebra a ordenação de uns católicos romanos que, tendo sido ordenados na igreja romana, pretendiam ingressar na Ortodoxia e Monsenhor António recusou liminarmente, dizendo que não ordenaria gente cheia dos vícios daquela jurisdição. Pediu-se então um bispo. Não era possível na ROCOR. Mas… Talvez se pudesse falar, sem grande esperança, claro, com os vétero-calendaristas gregos. E contra toda a expectativa, o Sínodo de Auxentius – ele próprio sob suspensão de juízo canónico - concedeu. E, segunda surpresa, o bispo era o próprio arquimandrita. (Aos gregos tinha sido pedido um bispo grego, para não complicar).
A Gabriel de Lisboa aplicava-se com rigor o que antes se disse de Eugraph Kovalevski: era um homem tocado pela genialidade profética. Dir-se-ia que diante do seu báculo não havia impossíveis. Como não tinha havido para Eugraph Kovalevski que, sagrado sob a presidência de S. João Maximovich, assumiu o nome de Fé de Jean de Saint Denis no dia da festa do Patrono das Gálias, Martin de Tours. Esta figura ímpar da História contemporânea da Igreja foi uma influência marcante para Gabriel de Lisboa. A ICOP desenha-se sobre o modelo da ECOF. E percorre caminhos próximos; até um desfecho próximo, também. 
O Santo Arcebispo Meletius Exarca do Patriarca Ecuménico na Europa Ocidental pronunciou-se um dia sobre a primeira fase desta aventura canónica, na oração de sapiência de um doutoramento honoris causa, em Inglaterra, e disse que a jurisdição de Gabriel de Lisboa – o Exarcato Vétero Calendarista Grego da Europa Ocidental – estava na fímbria da canonicidade. É posição de subtileza realmente fanariota. Nem dentro, nem fora. Conhecido sem reconhecimento. Não excluído, nem aceite. O “fenómeno ortodoxo português”, como alguém nos disse que Olivier Clément nos chamara, viveu muitos anos em situação de suspensão de juízo canónico. 
Vladika Vassily, Santo Metropolita de Varsóvia, informadas todas as Igrejas Irmãs, anunciou em 1990 a decisão sinodal de acolher Gabriel de Lisboa na jurisdição da Santa Igreja Ortodoxa da Polónia, impondo, não obstante, um ajustamento canónico e limitando a jurisdição da nova Província da Igreja aos territórios de Portugal, Espanha e Brasil. Na frágil estrutura que emergia, Gabriel presidia agora a um colégio provincial de seis bispos. Foram anos de intensa serenidade. Mas em 1995 Mons. Gabriel recolheu-se, fazendo face à doença e em Fevereiro de 1997 nasceu para os céus. 
Reunido o Concílio local, reafirmou este a sua fidelidade ao Metropolita fundador. E adoptou cânone a declarar fora da Comunhão de Fé aqueles que, reputando-se cristãos, pronunciem a fórmula do rito maçónico de iniciação, em cujos termos seria ali que receberiam a luz, acrescentando que, antes disso, estavam nas trevas - segundo os textos de conhecimento público – assim renegando livremente, objectiva e subjectivamente, a Luz sem Crepúsculo, num acto material e formal de apostasia, cuja eficácia e correspondente repercussão prática não podem deixar de se reconhecer e declarar. É preciso notar que a Igreja tivera a presença de um presbítero que publicamente se identificou com uma obediência maçónica, por sinal especialmente repulsiva e que mereceu de quem a integrou (como Grão Mestre) o epíteto publicado de “P2 à portuguesa”. Não era portanto possível deixar de tomar posição clara. Ficou clara. Um jurista foi incumbido de redigir o Cânone a propor à aprovação conciliar. Gostei da redacção. Foi aprovado. 
O Concílio elegeu também o sucessor, que foi excomungado ao quarto ano de pontificado, com todos os que com ele permanecessem. Ignora-se se todas as comunidades puderam tomar conhecimento do Tomos excomunicatório. Mas os fiéis ao cânone permaneceram algum tempo organizados em conselho provisório de administração e com a assistência pastoral dos Bispos da Metrópole no Brasil, vindo estes fiéis e o pouco clero que os assistia a ser acolhidos na jurisdição do Patriarcado Ecuménico. 
A jovem estrutura eclesiástica era já acentuadamente popular no território português e na Galiza. Camponesa, mesmo. E estava marcada, talvez excessivamente, por um grupo popular que emergira da Igreja Católica Romana e mantinha doentios hábitos católicos romanos; estava tal grupo ferido pelo analfabetismo em boa parte dos seus membros – eram vários milhares – e esta gente dependia estrictamente da presença do Metropolita a quem seguia com deferente obediência. O Santo Metropolita dedicava muito tempo ao acompanhamento deles e conseguiu ali um nível de disciplina canónica perfeitamente aceitável. Em todas as paróquias o laicado e o clero (todo o laicado) cantavam com todo o rigor a Liturgia. 
O sucessor de Gabriel perdeu completamente a autoridade junto deste grupo, ou nunca a teve. E  Varsóvia reagiu como entendeu ser seu dever reagir. Em nenhuma jurisdição ortodoxa há qualquer experiência de pastorear nos dias de hoje gente privada de frequência escolar desde a infância. E era o caso, ali. Gabriel de Lisboa sabia o que fazer. Mas mais ninguém o soube ou saberia. 
O analfabetismo por privação de frequência escolar ainda existe em Portugal, muito embora haja também o problema da aparente inutilidade da escola, ou do analfabetismo que regressa apesar da frequência escolar. As taxas rondam os sessenta por cento desta iliteracia. (Apetece chorar, eu sei). É preciso juntar a isto a informação de que se trata da população europeia que mais psico-fármacos consome, porque a filantropia do Serviço Nacional de Saúde quer anestesiar todas as dores e, porventura, mesmo aquelas que Deus consente para que o despertar ocorra. A última vez que olhei para os números vi que 40% da população consome psico-fármacos. Não sei como se articula isto com as percentagens dos alcoólicos e outros tóxico-dependentes, mas, eventualmente, há que somar, sem mais. O país transformou-se num grande asilo psiquiátrico. A classe média alta vive mimetizando a sobre-ocupação, com uns estereótipos de conduta a mimetizarem a alegria nos períodos de diversão. Na relação entre os sexos, a inteligência e a cultura não são instrumentos de sedução em nenhum estracto social. (É drástico, isto; e é tremendo viver aqui). Eu próprio – que estou longe de ser um intelectual – não teria conseguido constituir família aqui se Deus não me tivesse mandado uma italo-croata. 
É em todo o caso necessário transfigurar esta gente. É a gente que aqui há. E não acham que eu seja um deles. Na Rússia pensam que sou russo, na Roménia acham-me romeno e na Sérvia, sérvio; na Polónia, polaco; em Paris, acham-me… belga. Mas aqui, dez minutos volvidos com alguém que acabe de me conhecer, ocorre a pergunta de sempre: – “Não é de cá, pois não? De onde vem?” 
Na sequência da excomunhão, perderam-se todos os lugares de culto; cerca de vinte, em todo o território. Porque os tribunais portugueses chamados a intervir não lograram compreender que os estatutos da Igreja são os cânones. Não compreenderam que o único Sínodo existente não era aquilo a que os excomungados chamavam Sínodo (e do qual tinham excluído quatro bispos da província, a maioria, simplesmente); Sínodo era o da Igreja-Mãe. Esses lugares foram vendidos, até, por aqueles a quem não podiam pertencer. Mas as péssimas relações entre o conselho e os juristas disponíveis para o combate (pro bono) pelos direitos da Igreja determinaram a frustração da defesa dos direitos em presença. Eu era um desses juristas. 
A divergência fundamental entre os juristas e o conselho assentava, parece, no espírito de clube ou capela privada dos que receberam a informação canónica em tempo e excluíram (objectivamente) os outros a quem não procuraram, não chamaram, não mobilizaram, não esclareceram e até afastaram. (Por puro snobismo, tanto quanto me parece).
Outra divergência fundamental foi a recusa da assistência aos nossos irmãos migrantes que neste território viveram tempos de inferno, hostilizados pela xenofobia provinciana, pelos trabalhadores com quem irmanavam nas pesadas tarefas para as quais se ofereciam, sendo que os locais entendiam que os migrantes lhes ” roubavam o trabalho” (o que simplesmente não é verdade, embora não seja este o momento de o esclarecer*) eram assaltados frequentemente por homens nada escrupulosos das forças de segurança que, segundo as queixas que ouvi aos imigrantes, saíam em “caça” nos dias de pagamento, roubando-lhes o dinheiro que ainda tinham no bolso antes de o conseguirem enviar às famílias. Havia também o patrão usurário – monstro vulgar, aqui - que os fazia trabalhar sem pagamento e, pedido o pagamento, os denunciava ao serviço de fronteiras por estadia ilegal. Havia ainda os problemas de saúde. Caíam das pontes e dos andaimes e tudo lhes caia em cima. Morriam de doenças cruéis, como a leptospirose. E tendo sofrido os mais duros e mais degradantes tratamentos, chegavam a chorar quando eu os tratava pelo título que lhes cabia por justiça inteira; lembro-me de quatro casos: senhor major, senhor coronel, senhor professor e senhor doutor (no caso dos médicos, que não foram poucos)… Lembro-me concretamente de duas oftalmologistas ucranianas a trabalharem num aviário, numa altura em que no arquipélago dos Açores só havia um oftalmologista para todas as ilhas. Não sei o que lhes aconteceu. Queira Deus protegê-las. 
Socorrendo os migrantes no que pude e posso, sobretudo no âmbito da Santa Igreja Romena (os romenos sempre foram aqui alvo de uma xenofobia agressiva, mais do que quaisquer outros, coisa que a própria imprensa romena do interior ainda não entendeu) percebi muito do que ignorava completamente no mundo do trabalho braçal e que, confesso, nunca tinha visto, porque a estratificação social é aqui tão (estupidamente) severa que – ao contrário do que se passa com os nossos irmãos migrantes, com quem me encontrava e encontro em Liturgia e com quem posso conversar depois da celebração - eu simplesmente não tinha, nem tenho, ponto de contacto com os meus compatriotas em circunstâncias próximas. Próximas. Talvez não tão duras. 
Algumas vezes se conseguiu que histórias horríveis acabassem bem. Outras vezes nada consegui de útil. Outras, ainda, tive de suportar um conflito sério com o tribunal – e com a Ordem – por recusar que o preconceito conduzisse a desfechos trágicos. Esses problemas colocaram-se em regra em Processo Criminal. A jurisdição de trabalho, quando os problemas se puseram, portou-se bastante bem, habitualmente. O Ministério Público em Tribunal de Família teve (e tem) uma conduta pavorosa que o Tribunal de Família consente, mas que a hierarquia própria, do próprio MP, pode em algumas circunstâncias controlar (melhor do que os juízes). E uma ou outra vez, nem os que eu socorria em Processo Criminal perceberam a tensão gerada… A integração da Roménia e da Bulgária na União Europeia eliminou muitos destes problemas. Ainda que, infelizmente, não todos. 
Como é ser ortodoxo aqui? ... Pode ser muito trepidante, como se vê. Lisboa é ainda a única capital europeia que não tem nenhuma Catedral Ortodoxa de nenhuma jurisdição. A habilidade da ICAR frustrou todas as tentativas. Sempre houve pressão e intriga, claro. Com alguns inconvenientes sérios. Penso que a ICAR se entendia “dona” das almas e das consciências dos nascidos no território; e se o protestantismo era olhado (ainda nos anos oitenta) como coisa de baixa classe média, a “aparição” do assessor jurídico do Metropolita Gabriel incomodava-os.  
Mesmo familiarmente, minha mulher – condecorada com a Insígnia de Santa Maria Magdalena – não reagiu sempre bem. 
A Carolina partiu já ao encontro de Cristo, deixando-me a duvidar da justeza dos votos matrimoniais. Parece-me agora absurdo formular votos até à separação pela morte, porque a morte não separa. Se a minha experiência pode valer aqui alguma coisa – e de acordo com uma observação inspiradora de uma Colega - o que a vida não separou, a morte não separará. Vladika Savas de Varsóvia preveniu-me disso, porventura sem o saber. Referiu-me, dez anos antes, a resposta de Santa Mónica aos pretendentes, falando do marido que partira – “o seu amor continua comigo”. E tem sido assim, realmente.      
Foucault, que teria dado um óptimo abade, ensina na Hermenêutica do Sujeito (costumo dizer isto para provocar os santos clérigos) que se chamarmos Filosofia à procura do conhecimento, devemos chamar espiritualidade à situação em que ficamos, moldados já pela disciplina da procura e pela gratificação da descoberta, ou do encontro. Não me parece mal visto. E o meu encontro com a Ortodoxia teve as consequências pessoais que, em tese geral, se poderiam esperar. Sublinho três. 
Não há posição teológica sem reflexos no pensamento político. Também isso aconteceu comigo e à minha escala. Entendi interiormente que, como disse um dia o Santo Metropolita Kiril de Smolensk (actual Patriarca de Moscovo), a Terra só tem um Senhor e que, por isso, o usufruto universal concedido ao inteiro género humano faz de todas as formas da sua gestão – propriedade incluída - alguma coisa sempre discutível face à adequação ou desadequação da situação concreta à sua própria teleologia. Tudo, aqui, é discutível a todo o tempo, sob todos os aspectos e em todos os termos. Tudo é formulável e reformulável. Individualmente e colectivamente é preciso descobrir o desprendimento de que falou Plutarco quanto a Valério de quem disse ter sabido ser dono do que era seu. E Valério nunca ouviu as Bem-Aventuranças... A propriedade privada não está no Credo, embora a apropriação ilícita esteja condenada no Decálogo: “Não roubarás”. Não há nisto qualquer determinação quanto à forma ou titularidade da propriedade lesada. Mas a apropriação ilícita está condenada.
Outra coisa que julgo ter compreendido bem – e em Liturgia, de resto – é o significado cristalizado na Prática Litúrgica da hieraticidade. O sakos abotoado com campainhas mostra bem, a meu modesto olhar, o que significa vestir a cruz – que o sakos é – significa que o hierarca está condenado à radical circunstância da significação cabal dos seus gestos. Nele nenhum gesto é insignificante, uma vez que as campainhas o sublinham. E esta é uma dimensão muito bela – e que imagino duríssima – da hieraticidade. A consciência clara de que todos os gestos devem ter um sentido e um sentido de Serviço. (Não é pouco, convenhamos). 
Outra referência – que a própria dignidade da Liturgia ensina – é o significado da humildade. A presença majestática do Bispo, do Metropolita, ou do Patriarca nos seus tronos é humilde. Porque a humildade não será mais do que a consciência actuante da humanidade do homem. Tão terra como a terra e imagem de Deus. Todos os homens são ícones, portanto. E a humildade é apenas a autenticidade exigível. Terra como a montanha escarpada, ou como o vale protegido e suave, terra como a praia que liberta para os caminhos do mar, terra como a planície sem fim, terra como o deserto, terra como a floresta. Há muitas terras na Terra. E cada uma delas com a fertilidade e a beleza que lhe são próprias. É preciso saber ser completamente diferente dos outros, porque é necessária a fidelidade a si próprio para ser possível a autenticidade. 
Nesta fidelidade, guiam-nos os heróis que os santos são. Guias na lucidez porque o heroísmo resulta aqui não de um rompante da vontade, mas do olhar lúcido que discerne as referências e as proporções diante das quais, livre, se auto-determina a acção própria. A lucidez parece ser condição da liberdade dos filhos de Deus. E ver bem, ou pensar bem, é tarefa pessoal de cada um deles. Diria mesmo, incumbência pessoal. Há certamente ajudas – o debate livre, por exemplo – mas não há substituições.
São talvez estas as referências fundamentais – em sentido exactíssimo – em que o meu regresso à Ortodoxia me centrou. 
Deixo-vos, por último, uma página de jornal (o Correio da Manhã) com uma notícia importante da história que vos narrei. O Chefe do Estado Português recebendo de Vassily de Varsóvia a Insígnia de Oiro de Santa Maria Magdalena – a distinção mais alta da Igreja Ortodoxa da Polónia - na presença de Gabriel de Lisboa. O Presidente Soares mandou registar esta Ordem na Chancelaria da Presidência. (Evidentemente).
José Preto, maio de 2015