jueves, 30 de julio de 2020

A Eparquia Ortodoxa do Brasil, uma digna herdeira da Ortodoxia ibérica


A Eparquia Ortodoxa do Brasil, sob jurisdição da Igreja Autocéfala da Polônia, tem a característica de ter sido constituída a partir de brasileiros que não são descendentes de povos tradicionalmente ortodoxos. O seu ‘povo’ inicial tem sua origem em pessoas residentes em Recife e no Rio de Janeiro que, nos idos de 1985, se dedicavam ao estudo de saberes metafísicos e esotéricos. Essas pessoas buscavam encontrar uma Tradição Sagrada, que ainda se mantivesse autêntica e não contaminada pelo materialismo e racionalismo ocidentais. O grupo de Recife tinha, no seu organizador, um ponto de contato e intercambio com o grupo residente no Rio de Janeiro.

Uma série de coincidências levou a que esses dois grupos viessem a promover a vinda de um jornalista e intelectual português, com o objetivo de ministrar, no Rio de Janeiro e em Recife, um curso sobre simbolismo e arte sagrada. Acontece que esse jornalista também era um padre ortodoxo.

Esse encontro do padre ortodoxo com esse grupo de brasileiros causou uma profunda impressão em ambas as partes. Semanas após a partida do padre, os brasileiros receberam, da parte do Metropolita Gabriel de Lisboa, superior hierárquico daquele padre, um convite para visitar o mosteiro ortodoxo que ficava em Mafra-Portugal.

É assim que, na primeira quinzena de julho de 1986, parte para Lisboa um grupo composto de 5 pessoas do Recife e 4 do Rio de Janeiro. Lá chegando, ficaram todos impactados com o ambiente do mosteiro, com a pessoa de Dom Gabriel, com a doutrina ortodoxa, que ele nos apresentava a cada noite até altas madrugadas, e, principalmente, com os Ofícios Divinos cantados em português. O certo é que, alguns dias após a chegada, estavam todos decididos a fazer parte desta grande família das igrejas ortodoxas. Pediram, então, que fossem recebidos como cristãos ortodoxos.

Surgiu aí o primeiro problema: como serem batizados e voltar para o Brasil? Como alimentar a fé? Como se manterem fiéis à doutrina ortodoxa? No Brasil não se conhecia, naquela altura, nenhuma das igrejas de imigrantes. Dom Gabriel recusava recebê-los na Igreja, numa situação em que não havia perspectiva deles, ao voltarem ao Brasil, continuar a serem santificados e alimentados espiritualmente pelos sacramentos e pela Sagrada Liturgia. Nessa situação emergencial, a solução encontrada foi a de que alguns dos brasileiros aceitassem a ordenação presbiterial para iniciar no Brasil, uma missão da Santa Igreja Ortodoxa.

Na festa de Pentecostes do ano de 1986, esses brasileiros foram batizados e crismados na Catedral Ortodoxa de Lisboa. Semanas depois foram celebrados um casamento, uma tonsura monástica e as ordenações de dois padres: o hieromonge Paulo e o presbítero Aléxis, e ainda, dois subdiáconos: os reverendos Alexandre e Filipe.

Em julho de 1986 desembarca no Brasil uma perfeita missão de ortodoxos brasileiros, com o intuito de implantar a Fé Ortodoxa neste país. Logo após o retorno desse grupo de nove brasileiros, tivemos no Rio de Janeiro um primeiro batismo de sete pessoas e, no Recife, o de um grupo de vinte e cinco pessoas. Esse foi o início dessa Igreja Ortodoxa voltada para brasileiros.

O Metropolita D. Gabriel era integrante do Sínodo vetero-calendarista Grego. No entanto, uma profunda divergência teológica fez com que ele se retirasse daquele Sínodo. Essa divergência consistia em que o arcebispo Auxentios passara a afirmar, a partir de 1987, que a Igreja que não fosse Velho-Calendarista não possuía a Graça Divina e, por isso, não tinha nem Sucessão Apostólica nem Sacramentos. Tal posição doutrinal era inaceitável para D. Gabriel.

Após romper com o Sinodo vetero-calendarista, D. Gabriel fez gestões junto a várias Igrejas Ortodoxas canônicas, inclusive junto ao Patriarcado Ecumênico, mas foi a Igreja Ortodoxa Autocéfala da Polônia que respondeu. Com o apoio de Sua Beatitude, o Metropolita Basílio de Varsóvia e de Toda a Polônia, o Metropolita de Lisboa foi aceito no Santo Sínodo polonês. No final de 1989, foi assinado o protocolo de comunhão canônica entre a Metrópole Ortodoxa de Portugal, Espanha e todo Brasil e a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Autocéfala da Polônia, solenidade que ocorreu em Lisboa. Quem presidiu as solenidades representando o Metropolita de Varsóvia foi o, na época, Arcebispo de Bialystok e Gdansk, Sua Excelência Reverendíssima o Sr Dom Sawa, atual Primaz da Igreja da Polônia.

No fim do ano de 1991, Dom Gabriel, acompanhado dos Bispos Thiago e Theodoro, do Monsenhor João e ainda do Arquimandrita Chrisóstomo, fez uma visita à Polônia. Na reunião do Sínodo dos Bispos da Igreja da Polônia, realizada durantes as comemorações da Festa da Transfiguração, no Monastério de Grabarka, dois bispos são eleitos: Monsenhor João como Bispo auxiliar para Portugal e o Arquimandrita Chrisóstomo como Bispo residencial para o Brasil. As respectivas sagrações vão ocorrer no mês de dezembro de 1991, em Portugal, contando com a presença do Arcebispo Simão, delegado do Metropolita Basílio de Varsóvia.

No segundo semestre de 1992 toma posse da Diocese do Rio de Janeiro e Olinda-Recife o primeiro Bispo ortodoxo brasileiro para o Brasil. A Diocese do Brasil, neste momento, era composta de quase mil fiéis, 4 paróquias, 5 missões, 1 Arquimandrita, 10 presbíteros, 1 protodiácono, 4 diáconos, uma dezena de leitores e subdiáconos, alguns estudando e servindo na Metrópole de Portugal. Os monges e rasophores brasileiros, nos mosteiros da Europa, chegaram ao número de 30.

Em fevereiro de 1997, Sua Beatitude D. Gabriel – de memória eterna – nasce para os céus. E no transcurso desse mesmo ano, o Arcebispo João é elevado ao cargo de Metropolita de Portugal, Espanha e Todo o Brasil.

Em junho de 1998, foi sagrado um Bispo auxiliar para o Brasil, S. Excelência o Sr. D. Ambrósio, Bispo de Recife.

Durante o ano de 2000, conflitos de natureza eclesial e discipinar eclodem envolvendo o Metropolita João, a comunidade de brasileiros ortodoxos e o Metropolita Sawa da Polônia. Surgem conflitos também entre o Metropolita João e a Abadessa do Mosteiro de Mafra. Um grupo de monjas, lideradas pela Abadessa se refugia no Mosteiro Ortodoxo de Gondencourt, França, vinculado ao Patriarcado da Sérvia. Esse refúgio foi obtido com a permissão e a bênção do Metropolita Sawa de Varsóvia.

A evolução das divergências entre o Metropolita João e o Santo Sínodo da Polônia levou a ruptura da comunhão canônica. No entanto, os bispos brasileiros não acompanharam D. João. Eles se mantiveram como membros daquele Santo Sínodo. Isso fez com que a Igreja Ortodoxa do Brasil se desvinculasse da Metropolia de Portugal.

Em virtude desses acontecimentos, desde o dia 8 de agosto de 2000, a Eparquia do Brasil está sob a proteção direta do homofórion de Sua Beatitude Dom Sawa, Metropolita de Varsóvia e toda Polônia.

Essa crise envolvendo a Metropolia de Lisboa, a comunidade de brasileiros ortodoxos e o Santo Sínodo da Polônia resultou em um duro revez para a Eparquia do Brasil. Quatro padres e um diácono do nordeste se transferiram para a jurisdição do patriarcado da Sérvia, e outros 2 diáconos desligaram-se do sacerdócio. No sudeste, um padre migrou para a Igreja Russa fora das fronteiras e outros quatro e mais dois diáconos se desligaram da Igreja.

Depois deste golpe, uma nova fase se inicia, marcada pelo desenvolvimento de projetos pastorais, de fortalecimento da fé e também pela aproximação com as Igrejas Ortodoxas originárias da imigração. Iniciou-se a formação de movimentos e organismos vinculados ou postos ao serviço do conjunto das Igrejas Ortodoxas Canônicas presentes no país.

A Eparquia Ortodoxa do Brasil, também passou a ter um maior empenho no sentido de melhorar a preparação pastoral do clero, e no sentido de aprofundar o conhecimento dos Ofícios e da Tradição Ortodoxa junto aos fiéis.

Hoje no Brasil encontram-se presentes seis Igrejas Ortodoxas Canônicas: quatro com origem na imigração oriunda de povos tradicionalmente ortodoxos, que são os árabes, gregos, russos e ucranianos. E duas Igrejas formadas por brasileiros não descendentes de ortodoxos: a Igreja Ortodoxa sob jurisdição polonesa e a Igreja Ortodoxa sob jurisdição sérvia. O que caracteriza o espirito missionário dessas duas últimas é a tradução do patrimônio da fé ortodoxa para o idioma português, pois que visa a sua difusão entre os brasileiros.

Atualmente essas seis Igrejas Ortodoxas irmãs constituem a Assembléia dos Bispos Ortodoxos da América Latina, órgão permanente que visa, entre outros objetivos, a preparação de um Concílio Pan Ortodoxo.


Fonte: Eparquia Ortodoxa do Brasil (Igreja Ortodoxa da Polónia)